S. João de Deus é a origem viva da Ordem Hospitaleira. A sua vida, marcada por procura, conversão e entrega, continua a inspirar uma forma concreta de cuidar, acolher e servir os mais frágeis.
Mais do que fundador de uma obra, S. João de Deus foi um homem transformado pelo encontro com o sofrimento humano e com a misericórdia de Deus. A sua história recorda que a Hospitalidade nasce quando alguém se deixa tocar profundamente pela dor do outro.
João Cidade, homem em caminho
João Cidade nasceu em Montemor-o-Novo, no Alentejo, em 1495. Ainda criança, partiu para Espanha, onde viveu longos anos ao serviço da família Mayoral, em Oropesa.
Foi pastor durante cerca de vinte anos, tempo em que amadureceu humana e espiritualmente, atravessando as etapas da adolescência, juventude e maturidade. A sua vida foi marcada por experiências diversas. Por duas vezes participou como soldado em campanhas militares, primeiro junto à fronteira com a França, depois em Viena, contra os Turcos.
Estas experiências deixaram nele um profundo sentido de fragilidade e de procura. Ao regressar dessas campanhas, iniciou um longo percurso interior e geográfico.
Passou por Santiago de Compostela, voltou a Portugal, percorreu Sevilha, Ceuta e Gibraltar, até se fixar em Granada, onde trabalhou como livreiro. João Cidade foi sempre um homem em caminho, à procura do sentido mais profundo da sua vida.
A conversão e o despertar da Hospitalidade
Em 1539, ao escutar um sermão de João de Ávila, João Cidade viveu uma experiência de conversão profunda. A intensidade desse momento levou-o a atravessar uma crise tão forte que foi internado no Hospital Real de Granada, considerado louco pelos comportamentos que manifestou.
Após esse período, emerge um homem pacificado, sereno e decidido a seguir Jesus Cristo de forma radical. Escolheu João de Ávila como guia espiritual, peregrinou ao Santuário da Virgem de Guadalupe e iniciou, em Granada, um novo modo de viver. Foi nesse contexto que começou a dedicar-se aos pobres, doentes e marginalizados, recolhendo-os das ruas e cuidando deles com atenção e respeito. O que inicialmente foi visto como excentricidade revelou-se, pouco a pouco, como verdadeira sabedoria evangélica.
A casa de Deus e o cuidado sem distinções
João Cidade começou do nada. Pedia esmola, trabalhava, acolhia os pobres e cuidava deles pessoalmente. A sua forma simples e direta de pedir apoio ficou marcada na expressão que repetia pelas ruas de Granada:
“Irmãos, fazei o bem a vós mesmos.”
Fundou o seu primeiro hospital, que chamava a casa de Deus, onde eram acolhidas todas as pessoas sem distinção. Separava os doentes conforme as suas necessidades e cuidava do corpo e da alma, numa visão profundamente humana e inovadora para o seu tempo.
Com o passar do tempo, outras pessoas juntaram-se a ele, dando origem a uma comunidade dedicada à Hospitalidade. Foi o Arcebispo de Granada quem lhe deu o nome pelo qual ficou conhecido: João de Deus.
João de Deus teve também uma atenção especial às mulheres marginalizadas e às prostitutas, ajudando-as a reconstruir a sua dignidade e a reintegrar-se na sociedade.
Um testemunho que marcou a cidade
Um dos episódios mais marcantes da sua vida foi o incêndio do Hospital Real de Granada, em 1549. João de Deus entrou no edifício em chamas e salvou vários doentes, expondo a própria vida. Este gesto consolidou o reconhecimento público da sua entrega e da sua santidade. A cidade passou a vê-lo como alguém que vivia totalmente para os outros, sem reservas.
A sua morte ocorreu a 8 de março de 1550, após se lançar ao rio Genil para tentar salvar uma criança. Morreu com fama de santidade, deixando uma obra que ultrapassaria largamente o seu tempo.
Reconhecimento da Igreja
João Cidade foi beatificado em 21 de setembro de 1630 pelo Papa Urbano VIII e canonizado em 16 de outubro de 1690 pelo Papa Alexandre VIII.
Em 1886, o Papa Leão XIII proclamou-o Patrono Celestial dos hospitais e dos doentes. Em 1930, o Papa Pio XI declarou-o Patrono dos enfermeiros e das suas associações. A Igreja reconhece, assim, em São João de Deus, um testemunho exemplar de cuidado, misericórdia e entrega ao serviço da vida.
Uma inspiração sempre atual
S. João de Deus continua a inspirar a Ordem Hospitaleira e todos os que partilham a sua missão. A sua vida recorda que a Hospitalidade não é uma técnica nem uma estratégia, mas uma forma de viver o Evangelho com radicalidade e ternura.
Encontrar Deus no amor aos irmãos, especialmente aos mais frágeis, permanece o coração da sua herança. É deste encontro que nasce a Ordem Hospitaleira e é nele que continua a encontrar o seu sentido.
Cartas de S. João de Deus
As seis cartas de S. João de Deus, que chegaram até nós, são um testemunho precioso da sua vida interior, da sua missão e da forma como acompanhava espiritualmente aqueles que com ele se cruzavam. Nelas, revela-se um homem profundamente humano, atento às fragilidades do outro, exigente na verdade e, ao mesmo tempo, marcado por uma grande ternura.
Estas cartas ajudam-nos a compreender melhor o coração do Fundador, a sua pedagogia espiritual e a forma como vivia a Hospitalidade não apenas nas obras, mas também na palavra escrita.